Quando os conquistadores espanhóis invadiram o Império Inca em busca de riquezas, ao final do século XVI, jamais poderiam imaginar que levariam para a Europa e o resto do mundo um bem muito mais precioso: a batata andina. Esta foi disseminada pelos navegadores espanhóis e ingleses para as colônias – origem da denominação de “batata inglesa”. Entretanto, foram os incas e outros povos indígenas que, durante oito milênios, desenvolveram a bataticultura, utilizando espécies andinas. Técnicas eficientes de produção tornaram a batata o principal produto agrícola, bem como a base da alimentação na Civilização Inca. Assim, foram selecionados tipos variados para os diversos usos na alimentação, alguns ainda hoje encontrados em países andinos.

Na Região Andina há mais de duas centenas de espécies silvestres tuberíferas, além de dez ou mais espécies cultivadas, sendo a batata que tornou-se cosmopolita uma dessas.

Entretanto, os espanhóis levaram para a Espanha, em 1570, uma única espécie: Solanum tuberosum ssp. andigena; há relatos de uma segunda introdução, em 1590, na Inglaterra. Contudo, somente cerca de 200 anos após, a batata tornou-se um alimento básico na Europa, sendo, a partir de então, introduzida em todos os continentes. Para europeus, norteamericanos e latino-americanos, exceto os brasileiros, a batata constitui a base da dieta alimentar diária; em outros países, como no Brasil, é utilizada em menor escala, como hortaliça.

A batateira é originária da região próxima ao equador terrestre, nas proximidades do lago Titicaca, próximo à fronteira entre Peru e Bolívia. Nessa região, dias e noites têm duração igual, de 12 horas ao longo do ano. Entretanto os europeus adaptaram a cultura para fotoperíodos longos de 16 até 18 horas, sendo que as plantas que não tuberizaram foram eliminadas.

Assim, com o tempo, ocorreu a adaptação aos dias longos do verão europeu, que foi completada no início do século XIX. Paralelamente houve acentuada erosão genética, perdendo-se preciosos genes responsáveis pela resistência a doenças e pragas – razão da elevada suscetibilidade das cultivares européias.

Portanto, as cultivares européias pertencem à espécie hoje cosmopolita Solanum tuberosum ssp. uberosum originária da subespécie andigena, após a adaptação às condições da Europa. Tais condições favorecem a produtividade, em culturas de primavera-verão, sob dias acentuadamente longos, seguindo-se um inverno rigoroso, o que limita a sobrevivência de fitopatógenos e insetospragas. Contrariamente, nos novos nichos ecológicos conquistados, as cultivares européias não manifestam adaptação ótima, resultando em que a cultura apresenta produtividade elevada e custo reduzido, na Europa, e produtividade menor, a um custo mais elevado, em regiões tropicais.

Nada mais simbólico da origem andina da batata do que a prece cerimonial pela safra, em tempos pré-colombianos, quando o Filho do Sol reunia os representantes das províncias do imenso Império Inca na capital Cuzco. Essa oração foi traduzida da língua original para o espanhol pelo agrônomo Marcos Reinstein, sendo aqui apresentada em português, incluída como homenagem aos indígenas andinos – os primeiros bataticultores.

“Ó Criador! Senhor dos confins do mundo, misericordioso, que dás vida às coisas e que neste mundo criastes os homens para que comessem e bebessem, multiplicai os frutos da terra, as batatas e os demais alimentos que criastes, multiplicai-os para que os homens não padeçam

de fome nem de miséria, para que todos se criem, não haja geada nem granizo; guardai-os em paz e a salvo!”

Fonte
Fernando Antonio Reis Filgueira, M.Sc., Dr. - Professor de Olericultura e Coordenador de Agronomia na Universidade Estadual de Goiás, Unidade Universitária de Ipameri - GO - 330, Km 241, s/n Anel Viário Ipameri, GO, Cep. 75780-000
http://www.abbabatatabrasileira.com.br/revista13_026.htm